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Nos tempos de Oswaldo Cruz

Dr. Luiz Roberto Londres é médico e diretor-presidente da Clínica São Vicente

O ano – meados da década de 80.

O local – residência de um ex-secretário municipal de Saúde.

O interlocutor – um ex-ministro da Saúde.

O assunto – ações federais na área da Saúde.

O tema – o descuido com a atenção à Saúde.

O interlocutor era o Dr. Paulo de Almeida Machado, ministro da Saúde do Presidente Geisel.

Foi a única vez que o vi e bastou para me impressionar sua segurança, seus conhecimentos e suas ideias a respeito de ações de saúde.

De toda a conversa houve um ponto que mais me fez colocar em dúvidas a clareza de suas colocações e imaginar se não estaria exagerando.

Foi quando falou que o mosquito transmissor da dengue e da febre amarela já estava de volta às matas vizinhas e que correríamos, em muito poucos anos, o risco de contágios e até mesmo epidemias.

Era uma corrida de tempo para a volta ao terceiro mundo sanitário.

Já nem mais se falava em vacina contra a febre amarela.

Era uma ameaça impensada para a população.

O motivo: o descuido com a estrutura sanitária do Ministério da Saúde, talvez em função da próxima fusão com a parte do Ministério da Previdência que cuidava da prestação de serviços a pacientes.

Além da diferença de abordagens, saúde vs. doença, prevenção vs. tratamento, havia ainda a vinculação ideológica, que ligava sanitarismo à coisa de esquerda.

Havia, na época, um confronto político, e os sanitaristas perderam.

Perdeu também a população posta em risco.

Perdeu o país, a sua imagem.

Ganhou quem? Apenas o mosquito.

E a doença virtualmente erradicada reaparece de forma mais virulenta e mais diversificada a cada ano que passa.

Um grande retrocesso, sem dúvida.

Saudades dos “bandeirinhas amarelas” que, com seu trabalho simples e dedicado, cuidavam para que esse estado de coisas não voltasse a acontecer.

Bem faria o governo se criasse condições para investimentos e difusão de conceitos e ações em áreas básicas da saúde: educação e vigilância sanitárias.

O custo social e financeiro causado pelas últimas epidemias de dengue (por sorte ainda não tivemos de febre amarela) provavelmente teria sido evitado com algumas ações simples e eficazes como havia no passado.

Mas, infelizmente, só pensamos nisso quando a doença aparece.

No resto do ano estamos muito ocupados com outras coisas mais importantes.

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