Israel e Ucrânia iniciam disputa pelos restos mortais do rabino Nachman de Breslov

Entrada do complexo do túmulo do rabino Nachman de Breslov. Dois soldados ucranianos fazem a guarda.

Estão em contraposição a fé judaica em Israel e a vontade ucraniana de ganhar dinheiro com os judeus. No meio, os restos mortais do rabino que criou o ramo hassídico mais animado e divertido no seio do judaísmo, o rabino Nachman de Breslov (1772–1810), na cidade de Uman, na Ucrânia. O rabino Nachman era bisneto do emblemático Baal Shem Tov, fundador do movimento hassídico. Baal Shem Tov era o título do rabino nascido no ano de 1698, chamado Yisroel ben Eliezer, numa cidade do que então fazia parte do Reino da Polônia. Pode-se dizer que Baal Shem Tov é quem origina o que hoje são todos os movimentos judaicos ortodoxos e hareidim.

É importante ter a noção exata de que o hassidismo era o reformismo do judaísmo na primeira metade do século 18 e que o rabino Nachman de Breslov, por sua vez, reformou o hassidismo na segunda metade ainda do século 18, para conceitos mais alegres.

Típicos seguidores do rabino Nachman em Israel

Seus seguidores podem ser facilmente reconhecidos pelo uso de grandes kipot (solidéus) de crochê branco. Frequentemente em Israel se vê grupos de jovens do ramo de Nachman, dançando e cantando alegremente nas esquinas. Obviamente que Nachman foi atacado e recebeu forte oposição de todos os outros ramos hassídicos da Europa Oriental no século 18, mas manteve sua cabeça erguida e seguiu em frente.

Cena comum em Israel, seguidores do rabino Nachman dançando na rua

Ao contrário de outros ramos ortodoxos judaicos que possuem seus rabinos chefes por sucessão familiar ou escolhidos pela comunidade, os Hassidim de Breslov não tem, pois Nachman não deixou sucessor escolhido antes de falecer.

O crescimento do grupo aconteceu no século 19, especialmente na Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Polônia. Depois da Revolução Russa, o movimento tornou-se ilegal e continuou com suas práticas de forma escondida. Conta a história do grupo que milhares deles foram aprisionados e executados durante do Grande Expurgo de 1930 na União Soviética e mortos pelos Nazistas em 1941 na invasão do território soviético. Depois da guerra o movimento se espalhou para a Inglaterra, Estados Unidos e principalmente Israel, tratando-se de ortodoxos sionistas. Muitos judeus expulsos de países árabes que foram para Israel e judeus iemenitas, resgatados e levados para Israel se incorporaram aos Hassidim de Breslov, que assim une, ashkenazitas, sefaraditas, árabes e iemenitas.

Túmulo do rabino Nachman de Breslov na Ucrânia

Em 1991, com o colapso da União Soviética, os membros do movimento começaram a ir até a cidade de Uman, na Ucrânia, visitar o túmulo de Nachman, local preservado há mais de 200 anos, não tendo sido destruído nem pelos nazistas, nem pelos soviéticos, em Rosh Hashaná, numa peregrinação festiva de fé. A cada ano o número de peregrinos é maior, chegando ao recorde de 40.000 judeus neste setembro de 2017, contra o 30.000 no ano anterior. Atualmente não só os Hassidim de Breslov vão lá, mas outros judeus ortodoxos e não-ortodoxos, também aderiram a este momento único festivo. Hoje é uma tradição.

E como diria Tevie, o leiteiro do Violinista no Telhado, as tradições começaram um dia como novidades. E esta é muito recente, com apenas 16 anos.

O fato é que membros do grupo de Breslov em Israel pediram ao governo para interceder junto ao governo Ucraniano com o pedido de trasladar os restos do rabino Nachman para serem reenterrados em Jerusalém. Sabemos que a maioria das pessoas acredita que os judeus não podem ser exumados e trasladados, mas isto pode ocorrer em duas instâncias simples: em cumprimento de ordem judicial ou com autorização dos rabinos do local do enterro e do novo local. Nos cemitérios judaicos dos Rio de Janeiro e de São Paulo temos vários túmulos trasladados vindos de cidades do interior, o que causa certa incompreensão a visitantes desavisados: como poderia haver um túmulo datado de 10 anos antes de criação do cemitério?

Outro motivo para os Breslovs, é que desde o início da guerra de separatismo na Ucrânia, que ainda não terminou e já resultou numa Crimeia independente, com apoio russo, aumentaram os incidentes antissemitas contra os peregrinos judeus, o que não aconteceria se a peregrinação fosse à Jerusalém. Além disto, seria mais barato pois evitaria à viagem à Ucrânia.

E é neste ponto exato que está o problema neste momento. A prefeitura de Uman, não pretende perder o faturamento do comércio e hotéis que precisam atender já a 40.000 pessoas a cada mês de setembro. Uman é uma cidadezinha agradável com apenas 87.000 habitantes e esta fonte de renda se tornou importante. Além disto há a venda de 40 mil passagens de avião envolvidas.

Assim, tudo está girando em torno de dinheiro para os ucranianos. Será que eles vão liberar o corpo de um dos mais importantes rabinos hassídicos para os judeus?

José Roitberg
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Jornalista, professor sobre o Holocausto formado no Yad Vashem e pesquisador sobre a história dos judeus e do Rio de Janeiro.

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