Cabo Verde muda sua relação com Israel e cemitérios judaicos antigos passam a ser protegidos pelo patrimônio histórico

Área judaica já reformada no cemitério católico da Praia, em Cabo Verde. No século 19 e até meados do século 20 o estabelecimento de áreas acatólicas em cemitérios sempre contava com uma separação física, que neste caso é até muito simples e quase nada separa.

Há poucos dias, o presidente de Cabo Verde, um país insular na costa africana do Atlântico, o sr. Jorge Carlos Fonseca, anunciou que o país não votará mais contra Israel na ONU. Esta declaração surge dois meses após negociações diretas, realizadas com Bibi Netanyahu numa conferência dos países do Oeste Africano, realizada na Libéria.

Quase ao mesmo tempo, o Projeto de Herança Judaica de Cabo Verde, sediado em Washington, anunciou estar assinado o acordo com o governo que transformou não só os cemitérios judaicos da ilha, mas também edificações pertencentes à comunidade judaica em locais protegidos pelo patrimônio histórico local e agora integrantes do circuito turístico da ilha de colonização portuguesa. A assinatura do acordo livrou os cemitérios e construções da especulação imobiliária que estava de olho em acabar com tudo e construir modernos edifícios nos locais.

Um dos importantes comerciantes judeus do século 19, em Cabo verde, vivia no sobrado, enquanto sua loja era no térreo como tão bem conhecemos no Brasil. Era Benjamin Cohen

Cabo Verde teve suas ondas migratórias de judeus. A primeira foi logo em 1496, quando da expulsão dos judeus de Portugal. Vários dos marranos, que se converteram para não serem expulsos, optaram por sair da Europa e ir para Cabo Verde onde se estabeleceram razoavelmente livres da Inquisição, a ponto de haver uma cidade na ilha chamada ‘Sinagoga’ e uma praia, denominada David.

Placa de entrada na estrada da cidade de Sinagoga, em cabo Verde.

A segunda leva chega a  partir de 1810, quando o Império Português aboliu a proibição do estabelecimento de judeus em seu território. Nesta imigração vieram judeus sefaraditas do Marrocos, principalmente, na mesma época em que outros, com mais posses, conseguiam comprar passagens para chegar até Belém do Pará.

Detalhe de túmulos judaicos do século 19 no cemitério da Boa Vista, em Cabo Verde.

E é desta época, do início do século 19 e das décadas seguintes, que se compõe vários cemitérios, cuja característica são só túmulos acima do nível do solo, certamente devido ao fato da constituição rochosa dos locais.

O cemitério mais antigo é o da Boa Vista. Existem ainda os cemitérios de Penha de Franca, Ponta do Sol e área judaica no cemitério católico da cidade de Praia. Existem casas conhecidas pertencentes à comerciantes judeus do século 19.

Detalhe de túmulos judaicos do século 19 no cemitério de Ponta do Sol em Cabo Verde

Entre os túmulos judaicos pode-se encontrar nomes como: Esther Benathar Benoliel, Isaac Pinto, Benjamin Cohen, Abraham Benros, famílias Levy, famílias Benchimol, Nascimento, Varela, Carvalho e tantas outras de judeus descendentes dos judeus portugueses, tão comuns no Brasil.

Ruínas da curiosa sinagoga de frente para o mar em Santo Antão

A sinagoga da ilha ficava no alto de um promontório, à beira-mar, posição típica de igrejas e talvez a única sinagoga moderna construída assim, mas ali, não há o que restaurar. Ela é apenas uma ruína a ser visitada e está preservada como tal em Santo Antão. Na verdade todas as construções daquele local ficaram arruinadas e não é uma questão específica da sinagoga construída em pedra.

José Roitberg
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Jornalista, professor sobre o Holocausto formado no Yad Vashem e pesquisador sobre a história dos judeus e do Rio de Janeiro.

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