Sinagoga centenária na Sibéria retorna à Comunidade Judaica

Pórtico da Sinagoga dos Soldados, na Sibéria, entalhado a mais de 120 anos atrás.

Quem sabe o que acontece na Sibéria e o que se esconde por lá? Certamente nossos leitores e leitoras, assim como nós mesmos da Menorah, nem fazíamos ideia da existência de uma comunidade judaica ativa na cidade de Tomsk, com enorme, linda e ativa sinagoga. Ela também é antiga, tendo sido confiscada pelo governo comunista, transformada em tribunal da cidade. Foi restituída aos judeus apenas em 2003. Esta sinagoga de Tomsk possui mikvá e uma pré-escola judaica com 15 alunos.

Atual sinagoga dos judeus de Tomsk também é muito antiga e em 1930 o regime comunista a converteu no tribunal da cidade.

Mas os cidadãos judeus de Tomsk passavam há décadas por outra sinagoga, a Sinagoga dos Soldados, construída ainda no século 19 e desapropriada pelo governo comunista apenas em 1930. Primeiro foi transformada em um teatro e depois redividida internamente para servir de moradia à 17 famílias com apenas uma cozinha e um banheiro.

Foto da Sinagoga dos Soldados tirada nos anos 1920 mostrando suas cúpulas.

Há alguns dias, a prefeitura de Tomsk decidiu entregar o imóvel fechado de volta aos judeus da cidade. O neto do último shamash desta sinagoga, ainda vive na cidade, tem mais de 80 anos de idade.

Há alguns elementos importantíssimos relacionados à Sinagoga dos Soldados. O primeiro é o fato dela ser uma das únicas sinagogas construídas em madeira remanescentes em todo o continente asiático e europeu. A construção em madeira era típica no século 19 e antes, para casas, prédios de governo, igrejas e sinagogas. As que resistiram ao tempo, acabaram sendo queimadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Só que os nazistas não chegaram até a Sibéria, é claro.

Hoje, a sinagoga construída no século 19 é vizinha a uma loja do KFC.

O interior da Sinagoga dos Soldados é o que se espera de uma construção abandonada e fechada há décadas. Mas o exterior está bem preservado, pois as construções na Sibéria, com as madeiras nativas de lá, resistem ao frio terrível e aos anos. As janelas se encontram fechadas com tábuas de madeira pregadas, medida de algum antigo administrador da cidade para evitar invasões e depredação.

Estado atual da parte interna da Sinagoga dos Soldados.

Tomsk fica a 3.200 km de Moscou e conta com meio milhão de habitantes, dos quais, apenas mil são judeus e não possuem recursos para a reforma da sinagoga com mais 120 anos.

O pórtico de madeira entalhada da Sinagoga dos Soldados resistiu bastante bem a estas 12 décadas e sua foto atual abre este artigo.

Mostrando a globalização até nos confins do mundo, ao lado da Sinagoga dos Soldados funciona uma lanchonete do KFC.

Vista externa atual de um dos cantos, talvez da única sinagoga de madeira sobrevivente.

Mas que soldados seriam estes? Desde o final do século 18 havia recrutamento obrigatório de jovens a partir de 16 anos de idade para o exército do Império Russo, não como soldados, mas como aprendizes e auxiliares. Os judeus estavam excluídos e a proporção nas cidades era de 16 jovens para cada 1.000 habitantes. Se considerava isto uma possibilidade dos jovens saírem da vida rural e obter ensino e estabilidade financeira como soldados, posteriormente.

Em 1827, o Czar Nicolau I baixou um decreto, diminuindo a idade de recrutamento para 12 anos, baixando a quota de católicos de 16 para 12 jovens e crianças por 1.000 habitantes, e criando a quota de 10 jovens por 1.000 habitantes, para os judeus, pela primeira vez. Assim desde 1827 passaram a existir jovens judeus como auxiliares no exército imperial russo. Os historiadores afirmam que até o fim desta prática, cerca de 75.000 jovens e crianças judias foram para o exército. Muitas se assimilaram e outras permaneceram judias.

Yakov Gavza (oficial), sentado, e seu irmão, filhos de Hessel Gavza e militares judeus do exército imperial russo no século 19.

O recrutamento obrigatório do primeiro filho judeu aos 18 anos de idade como soldado imperial se inicia por volta de 1850 apenas. Na época o serviço militar obrigatória russo era de 25 anos e isso valia para todos, fossem cristãos ou judeus. Essa prática durou menos de 50 anos. Assim havia de fato muitos soldados judeus russos no exército imperial do século 19 e muitos deles foram para unidades da Sibéria, não como punição, e também para unidade ao longo da ferrovia que atravessava a China até Port Arthur. Estes soldados e marinheiros judeus podiam chegar ao oficialato , tinham liberdade religiosa e participaram ativamente das comunidades judaicas nas cidades onde eram sediados, inclusive em Harbin e Port Arthur, na China. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Joseph Trumpeldor, tenente judeu que participou da batalha contra os japoneses, onde os nipônicos derrotaram as forças imperiais russas e Trumpeldor, gravemente ferido por um tiro de fuzil no ombro, passou alguns anos como prisioneiro dos japoneses.

José Roitberg
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Jornalista, professor sobre o Holocausto formado no Yad Vashem e pesquisador sobre a história dos judeus e do Rio de Janeiro.

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