ARTIGO: Quanto tempo durará o ‘sionismo’ de Jean Wyllys?

Em 1984, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) inaugurou um projeto inédito no país: o Seminário Israel. Tratava-se de uma turma de formadores de opinião das mais diversas áreas – artes cênicas, jornalismo, política, ativismo social, celebridades etc. – que era enviada para uma longa excursão a Israel. Lá, eles conheciam as universidades, institutos de pesquisas, ONGs, se reuniam com seus congêneres, e na volta eram convidados a relatarem o que viram em palestras e artigos.

Chico Alencar 01Chico Alencar 02Na primeira turma de enviados a Israel pela FIERJ estava um jovem político, então filiado ao PT, chamado Chico Alencar. Enquanto esteve na Terra Santa, foi só diversão. No entanto, uma vez de volta ao Brasil, os relatos simpáticos sobre a sua experiência em Israel só foram dados a ouvidos judaicos. Em sua atuação política, e para os ouvidos de seu eleitorado, seu discurso continuou sendo hostil ao Sionismo. Chegando ao ponto de liderar um ataque contra o Consulado de Israel no Rio de Janeiro, onde ajudou a incinerar uma bandeira daquele país, sob cartazes ilustrados com suásticas (fotos).

O Seminário Israel não existe mais, mas a sua essência continua a ser praticada por diversas instituições judaicas brasileiras. Não mais por atacado, mas no varejo, com convidados especiais que são enviados ao Estado Judeu com o mesmo objetivo: granjear simpatia para a causa Sionista.

O mais recente agraciado com um passeio por Israel é o deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ). Ele ainda está lá, e vem fazendo um diário de sua viagem na sua página no Facebook. De acordo com a página oficial da FIERJ, “A viagem de Jean Wyllys a Israel é uma iniciativa idealizada e custeada diretamente por membros da Comunidade Judaica do Rio de Janeiro”. Seu cicerone é o jovem Guilherme Cohen, um militante do PSOL que vem despontando em algumas entidades judaicas com pretensões políticas. Há alguns anos, Wyllys seguia o padrão habitual de seus colegas de partido, comparando em seu Twitter o Sionismo ao fundamentalismo islâmico. Em comparação, seu discurso atual soa bem mais moderado, com explicações até bastante bem elaboradas sobre o que é o Sionismo.

Um gol de placa de Guilherme Cohen e seus patrocinadores? Vamos com calma! O discurso de Wyllys melhorou muito. Mas ainda está longe de ser justo ou equilibrado. Ele já aprendeu que Sionismo não é a mesma coisa que nazismo, mas ainda chama o atual governo de Israel de “extrema-direita”, e o acusa de cometer “crimes e barbaridades”.

Isso não se deve apenas a um cacoete muito particular do deputado, que adora fugir de debates apelando para a Lei de Goodwin (“À medida em que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%”). Na verdade, Jean Wyllys está apenas reproduzindo o discurso de seus companheiros de viagem.

Existe uma facção de judeus brasileiros, todos militantes de partidos da esquerda BRASILEIRA, que faz um mishmash entre as políticas brasileira e israelense. E que adotam esse discurso – eles juram que isso é pacifismo e progressismo – cretino de que a culpa do Conflito Árabe-Israelense é todinha do atual gabinete de centro-direita que governa Israel.

É claro que não precisarei explicar aos leitores de MENORAH que o Conflito Árabe-Israelense tem causas (e soluções) muito maiores e mais profundas que a mera orientação ideológica do primeiro-ministro israelense. Sempre parto do princípio de que sou lido por pessoas com uma capacidade cognitiva e um nível cultural minimamente razoável. Mas essa pequena – pequeníssima! – facção de judeus de esquerda, além de deliberadamente ignorar estas causas, tem um apetite voraz por publicidade.

A publicidade que o cicerone de Jean Wyllys pretende conquistar com esta viagem está claríssima. No entanto, eu prefiro focar na publicidade de outro personagem deste artigo: o próprio Jean Wyllys.

Em seu diário de viagem virtual, o deputado vem sofrendo uma saraivada de críticas. Vindas de pessoas que se declaram seus eleitores, e que agora ameaçam deixar de lhe apoiar, em virtude da sua “traição”. Até mesmo seu companheiro de partido, Milton Temer, lhe atirou pesadas acusações, como a de que teria sofrido “lavagem cerebral da mídia conservadora”, por haver chamado o Hamas de grupo terrorista.

Jean Wyllys ainda não voltou ao Brasil. Mas uma vez que esteja de volta, terá que lidar com a sua própria base eleitoral e seu próprio partido – que tem entre seus quadros o inefável Babá, atualmente vereador no Rio de Janeiro – que se celebrizou por queimar bandeiras de Israel em passeatas. Como o já citado Chico Alencar, que hoje está no PSOL e que também já foi recebido com afagos e beijinhos pela turma de Guilherme Cohen.

Em resumo: Jean Wyllys não pagará a viagem. Está claríssimo que para se recuperar na sua base, o deputado terá que radicalizar novamente o seu discurso, já que apenas acusar Netanyahu de “criminoso de guerra” não parece suficiente para o restante dos psolistas. Aliás, foi o que Caetano Veloso teve que fazer recentemente, depois de ser alvo de uma campanha internacional de boicote por haver cantado em um show em Tel Aviv. O baiano (aliás, Jean Wyllys também é filho da Boa Terra) teve que prometer que jamais voltaria a pisar em Israel novamente para se recuperar.

Em minhas palestras sobre a história do antissemitismo, eu mostro como o ódio ao judeu – sob os mais variados pretextos – atende sempre a algum tipo de projeto de poder, seja religioso, político ou cultural. O antissemitismo na Esquerda é apenas a repetição de um case de sucesso há dois mil anos. Para um político profissional, ainda mais quando ele se fez em um meio cujo discurso já absorveu a narrativa judeofóbica como seu fundamento, a associação com “os crimes sionistas” (sic) é um verdadeiro suicídio. Os únicos que podem se beneficiar deste (por enquanto) alegre convescote pelas areias da Terra Santa são os aspirantes a políticos que constituem essa tal esquerda judaica. Até Jean Wyllys caetanear.

Victor Grinbaum
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Victor Grinbaum é jornalista, escritor e radialista. Trabalhou com Haroldo de Andrade, a lenda dos microfones, por dois anos e atualmente se dedica a escrever sua biografia.

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